Afinal, e-book é livro?

O cheiro e a textura de um livro nunca foram tão apreciados. Desde a chegada do e-book, o livro de papel se viu pivô de discussões ferrenhas sobre a inferioridade de sua versão digital, considerada insuficiente para substituir a experiência das páginas impressas. A questão filosófica ganhou contornos jurídicos quando o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou, em 2002, julgar um embate entre a Elfez Edição Comércio e Serviços Ltda. e o Estado do Rio de Janeiro.

A empresa entende que não precisa pagar ICMS e IPI pela publicação da “Enciclopédia Jurídica Eletrônica”, uma vez que a Constituição Federal prevê isenção tributária para livros, jornais, revistas e periódicos. O Estado do Rio de Janeiro, por outro lado, diz acreditar que e-book não é um livro, e, sendo assim, as isenções não se aplicam. A decisão do STF nesse caso será aplicada a todos os e-books publicados no país.

A verdade é que o processo, que aguarda julgamento há 14 anos, nem sequer faz sentido mais. Enquanto a dúvida se e-book era ou não considerado livro até fazia algum sentido em 2002, hoje em dia é claro que o e-book é um livro, só que publicado em outro suporte. No início do ano, tudo indicava que a decisão estava próxima, mas com o caos político que se instaurou no Brasil, o processo perdeu sua data de julgamento. E, enquanto isso, o leitor que prefere a versão virtual fica prejudicado. Felizmente para os radicais do livro impresso, a decisão do STF não influencia em nada o argumento de que, para ser livro, é preciso ter cheiro de papel novo.


“Não aguentava mais livro de jovem jornalista frustrado porque não consegue terminar romance sobre jovem jornalista que quer ser escritor.”

Maria Valéria Rezende
Autora de “Quarenta Dias” (Alfaguara), sobre “literatura do chororô” de escritores mais jovens


Quanto custa?

Atualmente, você paga, em média, R$ 47,49 por um livro no Brasil, segundo o Sindicato Nacional de Editores de Livros. No início de 2014, o valor era R$ 41,60. Apesar do aumento, a perspectiva é que os preços continuem a subir. Um dos motivos é o papel, que ficou 24% mais caro no país. A Câmara Brasileira do Livro fez um estudo e chegou à conclusão de que esse aumento causará um impacto de 16% no preço das obras. Em resumo, o preço médio do livro no país deve chegar aos R$ 55,08. Prepare seu bolso.


Lei do Preço Fixo

Tudo aponta que o Projeto de Lei 49/2015 (que pretende proibir descontos de mais de 10% no preço do
livro) não será aprovado. No início do ano, o senador Ricardo Ferraço (sem partido-ES) desistiu da relatoria da chamada Lei do Preço Fixo depois de confessar que, como leitor, não concorda com a proposta (“Se eu posso comprar mais barato, por que eu vou pagar mais caro?”, disse à “Folha de S.Paulo”). Agora, a relatoria da proposta – atualmente estacionada na Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania (CCJ) – está com o senador Lindbergh Farias (PT/RJ). Ainda é preciso ficar de olho.


“Queiramos ou não, Hitler é história, seu manifesto também. Quanto ao espectro de Hitler (…) o melhor é conhecê-lo e não escondê-lo. Mas, o que está mesmo em jogo é um valor do qual não se pode abrir mão: o livre circular das ideias”.

Hubert Alquéres
Vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), sobre decisão da Justiça do Rio de proibir a comercialização da autobiografia e manifesto nazista de Adolf Hitler, “Minha Luta”


Processos de escrita

A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) está preparando para maio uma edição de “Ficcionais: Escritores revelam o ato de forjar seus mundos”. O novo volume terá textos inéditos de Julián Fuks e
Sérgio Sant’Anna, além de Silviano Santiago e Maria Valéria Rezende. Publicada em 2013, a edição anterior segue disponível no site (www.cepe.com.br).


Triste fim da Cosac Naify

O fundador da editora que atingiu a excelência com obras de acabamento impecável anunciou em 2015 que decidiu fechar as portas da empresa até o fim deste ano. O estoque da editora será vendido exclusivamente na Amazon até chegar ao fim (www.editora.cosacnaify.com.br). Já os direitos das obras serão divididos entre as editoras Companhia das Letras, Globo Livros, Editora 34 (criada por ex-funcionários da casa), Sesi-SP e Senai-SP.


Guimarães Rosa explicado

O pensamento por trás da genialidade do mineiríssimo João Guimarães Rosa está, finalmente, ganhando investigação à altura. Com a liberação das biografias não autorizadas feita pelo Supremo Tribunal Federal, o jornalista e pesquisador da UnB Gustavo de Castro revelou que está trabalhando, desde 2013, em um livro sobre a história do autor. Entre materiais encontrados está o mapa astral encomendado de um astrólogo alemão em 1938, garantiu à “Folha de S.Paulo”.


Aulas de Literatura

Para quem busca um professor de literatura que ultrapasse as limitações da academia, as livrarias trazem bons lançamentos neste ano. A editora Civilização Brasileira publica a transcrição de dois meses de aulas dadas por Julio Cortázar na Califórnia com “Aulas de Literatura: Berkeley, 1980” (336p., R$ 45). Já a editora Três Estrelas traz manuscritos de aulas dadas por Vladimir Nabokov nos anos 40. São dois volumes, “Lições de Literatura” (464 p., R$ 79,90) e “Lições de Literatura Russa” (400 p., R$ 74,90).


Mais Harry Potter

Nove anos depois de celebrar a publicação do último livro da saga “Harry Potter”, J.K. Rowling vai lançar a “oitava história” do bruxo. Superada a fase infantojuvenil, Harry volta como um homem de 40 anos que sofre com um trabalho estressante no Ministério da Magia, além de tentar fazer seu melhor como marido e pai de três crianças. O livro, que é um roteiro (e não um romance), será lançado em 31 de julho no Reino Unido e nos Estados Unidos. No Brasil, a obra chega em novembro, e será publicada pela editora Rocco.

 

Hora de acender a chama

A busca pela nova literatura não é fácil. Ao procurar em grandes livrarias, você até encontra um ou outro título, mas quem busca pela diversidade, deve ir mais a fundo. Em Belo Horizonte, por exemplo, é na mesa do bar onde os novos (e, em sua grande maioria, jovens) escritores buscam reconhecimento. Tímidos ou extrovertidos, eles se apresentam, mostram sua obra, invariavelmente uma brochura impressa em preto e branco, e oferecem seu trabalho por preços módicos.

Esses volumes de poesias, literatura e quadrinhos, apresentados em pequenos impressos que encantam com seu acabamento apressado, mas delicadamente cuidadoso, são um retrato do tempo em que vivemos. Na era do excesso de informação, quem tem algo a dizer se esforça para embalar seu trabalho de forma que chame a atenção do mundo – e falha terrivelmente ao tentar emplacar seu pacote de ideias a um público que saiu de casa para se livrar das amarras do pensamento linear com a ajuda do álcool.

Mas que outra opção têm as novas vozes?

A publicação em blogs, uma ideia considerada nada menos do que genial no início dos anos 2000, é garantia de obscuridade. Outras opções no meio virtual, como Tumblr ou Medium, simplesmente não oferecem a legitimidade ou visibilidade que o novo escritor precisa. E a forma milenar de divulgar novas ideias, a editora tradicional, não parece estar muito interessada no novo. Enquanto os novos escritores investem na criatividade ao divulgar seu trabalho, as velhas editoras evitam inovar e concentram seus esforços em livros antigos, clássicos ou não, que já se garantiram no mercado.

Agora, imagine a diferença que o batalhão de novos escritores não faria na nossa vida se lhes fosse dada a chance? Quantas grandes histórias não estão guardadas nas gavetas de autores de todo o Brasil esperando a chance de marcar o país?

Como resolver esse problema? É chegada a hora de acender a chama.